Auto-Biografia de uma Criança

autobiografiaEm 16 de Março de 1990, um fato histórico mudava o Brasil de uma vez por todas: era o Plano Collor, que travou as contas da população e literalmente fodeu com a vida de muita gente. Alguns dos mais fodidos, por exemplo, foram meus pais. Enquanto eu, um embrião malandrão, decidi nascer num dia cretino como esse, meu pai se virava para pagar as contas do hospital e poder me levar pra casa.

Imagino se ele não consegue… Se em um restaurante que a gente come e não paga, a gente lava pratos… Em um hospital que seu filho nasce e você não paga, imagino que vá no mínimo ser obrigado a lavar os bisturis, as agulhas, as seringas e talvez até a se submeter a uma lavagem intestinal.

Com a conta paga, e comigo garantido, era hora da família felizona receber de braços abertos o bebê cabeçudo e de topete que saiu da maternidade. E era hora também do meu pai se organizar porque ele ia ter que criar dois filhos, conciliando isso com o seu emprego, dando atenção à minha mãe e continuando a ser um craque dos gramados de Araraquara.

O tempo foi passando e meu pai foi conseguindo, aos trancos e barrancos, manter a nossa família. E o bebê cabeçudo e de topete, que era a cara dele, foi tomando forma. Enquanto a minha mãe ralava com seu emprego de assistente social e meu pai com sua função de engenheiro na empresa, eu e meu irmão realizavamos combates mortais, amistosos de futebol e muitos embates cooperativos contra o mal. E foi assim que eu cresci: gamer, feroz e violento.

Enquanto meu irmão sempre foi o filho de olhos azuis, que toca violão e é sociável, eu me criei diferente. Eu era visto como o filho que era “a cara do pai”, um bocado descontrolado, anti-social e… engraçado? Sim. Sempre fui o palhaço de praticamente todas as turmas das quais fiz parte. Acho que é da minha natureza pensar que se alguém não está feliz, eu também não estou. Por isso, se o dia tá mal e se alguém tá down, em último caso posso me humilhar para que alguém se alegre com a minha desgraça.

Porque é da natureza do ser humano: rir da desgraça dos outros. Não pense que eu sou algum tipo de sádico ou cruel. Sou apenas alguém que entende o mundo em que vive: ou você encontra as pessoas certas, ou é cada um por si. E eu aprendi isso com o meu crescimento, logo na adolescência, em que encontrei finalmente um motivo pra viver e pra me alegrar. Alguém (além de meus pais trabalhadores) que realmente me amava. Até mais do que meus pais. Esse alguém é o Deus que planejou a minha vida e que permitiu que tudo acontecesse dessa forma.

E com isso, persisto no meu caminho de me tornar homem.  Confesso que já me apaixonei, já briguei, já discuti, já me magoei e já magoei muita gente. Já errei a ponto de não querer me perdoar, já pensei em coisas absurdas e já tive instintos que não sei de onde vieram. Já tive desejos errados, já julguei, já fui falso e já maltratei. Já fui desonesto, já fui babaca e já me meti em coisas erradas.

Caminho este que não percorro sozinho, mas sim ao lado de uma criança que se arrepende de todas essas coisas. Sim, aquela criança quatro-olhos, gorda, topetuda, “a cara do pai”, que ainda vive por aqui. Aquele gamer violento e feroz que nunca vai sair do meu coração, e que vai continuar regindo minha vida para sempre. Uma criança grossa, estúpida e por muitas vezes cabeça-dura, que fundamentou o seu coração na rocha e não tá nem aí praqueles que não a respeitam.

Mas é essa mesma criança que é relevada pelo seu carisma. Pela vontade de fazer graça a cada instante, pelo prazer que tem em despertar um sorriso em alguém. Pela sua qualidade de pensar sempre primeiro nos outros. Não no que os outros vão pensar, ou com o que os outros vão julgar: com isso, minha criança nunca se importou. Ela se importa com o que os outros realmente gostam, aproveitam e se felicitam.

E essa criança despertou um dom de liderança que realmente lhe foi dado do alto. Com isso, não sabe viver no morno, não sabe ficar parada e é extremamente hiperativa. Precisa viver ou no muito quente, ou no muito frio. Talvez por isso seja tão impaciente e ansiosa. Mas ao mesmo tempo, ela continua sendo a mesma anti-social e exclusiva que sempre foi. Mas ela me escuta, e eu posso escutá-la quando eu quero.

O problema é que nem sempre eu quero. Isso me torna falho, pecador, fraco. Reconheço que muito errei, que muito falhei e que muitas vezes pareço ter mudado os meus princípios. Mas eu sei que, por mais que eu cresça durante o meu caminho para me tornar homem, essa criança nunca irá crescer. E por todas as eras de trevas que eu passei, e por todas que passarei, ela esteve e estará ao meu lado, aguardando que eu a invoque.

Porque sem ela não há alegria, não há esperança, não há felicidade. Pois essa criança, é meu espírito, e esse homem, é a minha carne. E se a carne não se converte, o meu espírito não se corrompe. E graças a Deus essa criança é mais forte que esse homem: e eu imploro que ela sempre seja.

Se um dia eu finalmente crescer e me tornar adulto, que eu não esqueça dos meus hadoukens. Dos meus gols, dos meus duelos contra Diablo, dos meus fatalities, de minhas brincadeiras, e dos meus amigos. Por fim, que eu não me esqueça da minha família. Do meu primo que me ensinou a não comer cebola, do meu irmão que viveu me enchendo o saco e de meus pais que só trabalharam e me deram esporro: porque, sem eles, eu seria apenas um homem folgado e cretino. Mas graças à eles, eu preservei o que eu tenho de mais bonito: a criança, criada por eles, guardada para eles.

3 responses to this post.

  1. CHOREI TANQU3D
    TE AMO CARA
    BEIJOS

    Responder

  2. Posted by Fernanda on 14 de novembro de 2009 at 4:12 pm

    Profundo e verdadeiro, parabéns!

    Responder

  3. Posted by Shadão on 17 de novembro de 2009 at 5:01 pm

    Biografia sincera acima de tudo e muito bonita, John.
    Parabéns pelo texto.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: